Assim...

                

        

Assim, sem nada feito e o por fazer

Mal pensado, ou sonhado sem pensar,

Vejo os meus dias nulos decorrer,

E o cansaço de nada me aumentar.

 

Perdura, sim, como uma mocidade

Que a si mesma se sobrevive, a esperança,

Mas a mesma esperança o tédio invade,

E a mesma falsa mocidade cansa.

 

Tênue passar das horas sem proveito,

Leve correr dos dias sem ação,

Como a quem com saúde jaz no leito

Ou quem sempre se atrasa sem razão.

 

Vadio sem andar, meu ser inerte

Contempla-me, que esqueço de querer,

E a tarde exterior seu tédio verte

Sobre quem nada fez e nada quer.

 

Inútil vida, posta a um canto e ida

Sem que alguém nela fosse, nau sem mar,

Obra solentemente por ser lida,

Ah, deixem-se sonhar sem esperar!

 

(Fernando Pessoa)

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